Seis meses.
O ar na casa tornara-se respirável e é realmente um alívio não o ter mais por perto. Não se devia dizer isto de ninguém, ele que me desculpe por isto, as pessoas que desempenham um papel na nossa vida aparecem por algum motivo, devemos viver com isso como uma certeza.
Acredito no destino, mas é mais como desculpa de coincidências ridículas ou pressentimentos estúpidos, ou como meio de justificar o inexplicável e não mexer uma palha para trespassar emoções. Basta dizer " Foi assim que o destino quis" e pronto.
Foi assim que o destino quis, então acordei mal disposta, pronto. Não me arrependo e sinto-me aliviada, hoje consigo finalmente apreciar a estúpida da chuva a bater na persiana fechada do meu quarto depois de uma tarde de filmes perturbadores de alma. Eu adoro filmes perturbadores, despertam-me as emoções e tornam-me sensível. Uma pessoa que quer trabalhar com arte não pode perder a sensibilidade, embora eu me esteja a cagar para a arte a maior parte do tempo, tal como para as emoções. Julgo que tenho medo delas desde muito cedo, para isso criei uma defesa implacável de nunca deixar as pessoas perceber quando estou a falar a sério, é agradável ver os outros na dúvida, confusos, a pensarem que sou louca, claro que são os riscos a correr por se usar uma máscara, que na maioria das vezes resulta.
Com ele não resultava, dizia-me sempre "Tu não sabes brincar", eu ria-me imenso e achava engraçado vê-lo assim todo frustrado, vermelho e nervoso mas quando ele desapareceu e todas as outras pessoas continuaram na dúvida se eu falava a sério ou não, nunca mais ninguém me descobriu.
Pessoas odeiam-me por ser assim e é incrível como isso me conforta, já me perguntei se sou má pessoa, posso-me eu considerar uma piada de mau gosto? Até posso continuar mas não preciso de mencionar agora o quanto ego é infinito e vou deixar outra oportunidade para isso.
O que mudou? Deixei de escrever poemas porque já não acredito neles, começo a achar que acarretam involuntariamente algo de sentimental cujo o peso não posso suportar. Se eu voltar a escrever um poema considerem-me novamente emotiva, ou talvez bêbeda, também já aconteceu.
Retomemos ao centro da questão. Ele reaparece, mais velho 6 meses e fixo o olhar nele e cá dentro rio-me tanto como se tratasse de uma anedota. Não me apetece brincar desta vez e se eu tivesse que lhe dar motivos para voltar, eu diria:
" Não voltes onde sabes que não vais encontrar nada de bom." Soaria um pouco lamechas mas gosto da frase assim poética talvez para ele me lembrar de um jeito místico.
Devia escrever um livro, eu sei que devia, mas sou muito preguiçosa.
Sem comentários:
Enviar um comentário